terça-feira, 13 de março de 2012

FILOSOFIA - APOSTILA 3º ANO

COLÉGIO ESTADUAL NORBERTO FERNANDES
FILOSOFIA                  3º ANO                I UNIDADE
TRABALHO, ALIENAÇÃO E CONSUMO


TRABALHO COMO TORTURA - Talvez você já tenha visto camisetas que trazem estampados o simpático    (e perigoso) gato Garfield e a frase “Odeio segunda-feira”, representando o sentimento quase universal de desânimo  diante do trabalho. De fato, enquanto o próximo e desejado final de semana não chega, busca-se alento no happy hour, como se a “hora feliz” só pudesse existir no tempo-após-o-trabalho.
Confirmando esse sentido negativo, a própria palavra trabalhar deriva do latim tripaliare, que nomeava o tripálio, um instrumento formado por três paus, próprio para atar os condenados ou para manter presos os animais difíceis de ferrar. A origem comum identifica o trabalho à tortura.
Se a vida humana depende do trabalho, e este causa tanto desprazer, só podemos concluir que o ser humano está condenado à infelicidade. Para reverter esse quadro pessimista, vejamos os aspectos positivos do trabalho.
A HUMANIZAÇÃO PELO TRABALHO – É certo que o ser humano inaugura o mundo da cultura por sua capacidade de simbolizar. Por mudar conforme a época e o lugar, a cultura humana “faz história”, isto é, as gerações conservam certas práticas aprendidas e modificam outras. È pelo trabalho que a natureza é transformada mediante o esforço coletivo para arar a terra, colher seus frutos, domesticar animais, modificar paisagens e construir cidades. E não só: pelo trabalho surgem instituições como a família, o Estado, a escola: obras de pensamento como o mito. A ciência, a arte, a filosofia.
Podemos dizer que o ser humano se faz pelo trabalho, porque ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade. Desenvolve a imaginação, aprende a se relacionar com os demais, a enfrentar conflitos, a exigir de si mesmo a superação de dificuldades. Enfim, com o trabalho ninguém permanece o mesmo, porque ele modifica e enriquece a percepção do mundo e de si próprio.
Como condição de humanização, o trabalho liberta, ao viabilizar projetos e concretizar sonhos. Se em um primeiro momento a natureza apresenta-se como destino, o trabalho será a possibilidade da superação dos determinismos. Nesse sentido, a liberdade humana não é dada, mas resulta da ação humana transformadora. Nem sempre, porém, prevalece essa concepção positiva, sobretudo quando as pessoas são obrigadas a viver do trabalho alienado, que resulta de relações de exploração.
Estamos, portanto, diante de um impasse: o trabalho é tortura ou emancipação? Se voltarmos nosso olhar à história para ver como pessoas trabalham e o que pensam sobre trabalho, teremos uma visão mais clara dessa contradição.
Para refletir: Para se emancipar, a mulher precisou ter amplo acesso ao mercado de trabalho, não só para garantir sua autonomia financeira com relação ao homem – Pai ou marido _, mas também para construir nova identidade e tornar-se mais livre em suas escolhas.
 ÓCIO E NEGÓCIO -  Nas sociedades tribais, as pessoas dividem tarefas de acordo com sua força e capacidade. Os homens caçam, derrubam árvores para preparar o terreno das plantações, enquanto as mulheres semeiam e fazem a coleta. Como as divisão das tarefas se baseia na cooperação e na complementação e não na exploração, tanto a terra como os frutos do trabalho pertencem a toda a comunidade.
Por que mudaria esse estado de coisas? Para Jean-Jacques Rousseau, filósofo do século XVIII, a desigualdade surgiu quando alguém, ao cercar um terreno, lembrou-se de dizer “Isto é meu”, criando assim a propriedade privada. Nesse momento, abriu-se o caminho para a divisão social, as relações de dominação e a desigual apropriação dos frutos do trabalho. Desse modo, desde as mais antigas civilizações existe a divisão entre aqueles que mandam – e portanto projetam, concebem, inventam – e os que só obedecem e executam. È o que se denomina a dicotomia entre a concepção e a execução do trabalho.
À primeira vista, há aqueles que até hoje admitem ser “natural” essa divisão de funções, pois alguns teriam mais talento para o pensar, ao passo que outros só seriam capazes de atividades braçais. O olhar mais atento constata, no entanto, que a sociedade descobre mecanismos para manter a divisão, não conforme a capacidade, mas sim de acordo com a classe a que cada um pertence.                                                     Dicotomia: Divisão em duas partes.
Entre os antigos gregos e romanos, que viviam em sociedades escravagistas, era nítida a divisão ente atividades intelectuais e braçais, com a evidente desvalorização desta última. Um dos indícios da divisão social era a educação, por ser privilégio dos proprietários. Não por acaso, a palavra escola na Grécia antiga significava literalmente o “lugar do ócio”, onde as crianças se dedicavam à ginástica, aprendiam jogos, música e retórica – a arte de bem falar.
Para saber mais: O termo ócio não tinha naquele tempo o mesmo sentido de hoje. Para nós, ócio é o não fazer, o descanso. Para os gregos, tratava-se do “ócio digno”, que os isentava das atividades que apenas garantem a subsistência, para gozar o tempo livre e dedicar-se às funções nobres de guerrear, fazer política, pensar, decidir. Entre os romanos a palavra ócio (do latim, otium) manteve o sentido original grego, tanto é que o trabalho para sustentar a vida era identificado à palavra negócio (Nec-otium, “não ócio”).
UMA NOVA CONCEPÇÃO DE TRABALHO – Até a Idade Média, a riqueza se restringia à posse de terras, mas ao final desse período e durante a Idade Moderna, as atividades mercantis e manufatureiras desenvolveram-se a tal ponto que provocaram a expansão das fábricas, o que culminou com a Revolução Industrial no século XVIII.
Esses acontecimentos decorreram da ascensão da burguesia enriquecida, que valorizava a técnica e o trabalho, uma vez que constituía um segmento originado dos antigos servos libertos e que tornou livres as cidades antes controladas por senhores feudais. Por isso mesmo, a máquina passou a exercer grande fascínio: no século XVII, Pascal inventou a primeira máquina de calcular: Torricelli construiu o barômetro; surgiu o tear mecânico. No mesmo espírito, Galileu inaugurou o método das ciências da natureza, que se baseava no uso da técnica e da experimentação.
Ø As teorias da modernidade – O que diziam os pensadores da modernidade a respeito dessas mudanças, ao longo dos séculos XVII ao XIX? Francis Bacon (1561-1626), com o seu lema “saber é poder”, crítica a base metafísica da física grega e medieval e realça o papel histórico da ciência e do saber instrumental, capaz de dominar a natureza. Rejeita as concepções tradicionais de pensadores “sempre prontos para tagarelar”, mas que “são incapazes de gerar, pois a sabedoria é farta de palavras, mas estéril em obras” (Novum organum. Livro I,LXXI. SP: Abril Cultural, 1973. P.47. - Coleção Pensadores).
Numa linha semelhante, René Descartes (1596-1650) afirma:      Pois elas [as noções gerais da física] me fizeram ver que é possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis à vida, e que, em vez dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, se pode encontrar uma outra prática, pela qual [...] poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza.
Começa aí o ideal prometeico da ciência. Embora Bacon e Descartes seguissem linhas de reflexão diferentes e em certos pontos antagônicas, ambos destacam que a ciência e a técnica são capazes de “dominar a natureza”. Como se vê, estava ocorrendo uma mudança de enfoque na relação entre o pensar e o fazer.
Enquanto na Idade Média o saber contemplativo era privilegiado em detrimento da prática, no Renascimento e na Idade Moderna deu-se a valorização da técnica, da experimentação, do conhecimento alcançado por meio da prática.
No campo político e econômico, estavam sendo elaborados os princípios do liberalismo. Quais as consequências das ideias liberais para o trabalho? Superando as relações de dominação entre senhores e servos, foi instituído o contrato de trabalho entre indivíduos livres, o que significa o reconhecimento do trabalhador no campo jurídico.
Uma das novidades das ideias liberais é a valorização do trabalho. Assim diz Locke:Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem propriedade em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho do seu corpo e a obra de suas mãos, pode dizer-se, são propriamente dele. [...] Desde que esse trabalho é propriedade exclusiva do trabalhador, nenhum outro homem pode ter direito ao que se juntou, pelo menos quando houver bastante e igualmente de boa qualidade em comum para terceiros.

 Modernidade: É o período que começa no Renascimento em oposição à tradição medieval, valorizando o espírito crítico e a racionalidade científica. Os principais representantes são Bacon, Galileu e Descartes, no século XVII.                                                                
Prometeico: Relativo a Prometeu, figura da mitologia grega que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos seres humanos. Simboliza a valorização da técnica e do trabalho humano.                                                                                
Saber contemplativo: Conceito com vários sentidos. No contexto, saber puramente teórico, restrito à atividade da mente. Olhar atento e desinteressado, ou seja, sem uma finalidade prática imediata

No século XIX, o filósofo alemão Hegel faz uma leitura otimista da função do trabalho na célebre passagem “do senhor e do escravo”, descrita na Fenomenologia do espírito: dois indivíduos lutam entre si e um deles sai vencedor, podendo matar o vencido. Este, no entanto, prefere submeter-se, para poupar a própria vida. A fim de ser reconhecido como senhor, o vencedor conserva o outro como servo. O servo submetido tudo faz para o senhor, mas com o tempo o senhor descobre que não sabe fazer mais nada, porque, entre ele e o mundo, colocou o servo, e é ele que domina a natureza. Desse modo, o servo recupera a liberdade, porque o trabalho se torna a expressão da liberdade reconquistada.
O TRABALHO COMO MERCADORIA: A ALIENAÇÃO – No século XIX, o resplendor do progresso alcançado pela Revolução Industrial não oculta a questão social. A exploração dos operários fica explícita em extensas jornadas de trabalho em péssimas instalações, salários baixos, arregimentação de crianças e mulheres como mão de obra mais barata. Esse estado de coisas desencadeou os movimentos socialistas e anarquistas.
Nesse panorama, Karl Marx (1818-1883) retoma a temática hegeliana ao ver o trabalho como condição de liberdade. É pelo trabalho que o ser humano que o ser humano se confronta com as forças da natureza e, ao mesmo tempo que a modifica, transforma a si mesmo, humaniza-se.
No entanto, Marx nega que a nova ordem econômica do capitalismo fosse capaz de possibilitar a igualdade entre as partes, porque o trabalhador perde mais do que ganha. Já que produz para outro: a posse do produto lhe escapa. Nesse caso, é ele próprio que deixa de ser o centro de si mesmo. Não escolhe o salário – embora isso lhe apareça ficticiamente como o resultado de um contrato livre –, não escolhe o horário nem o ritmo de trabalho e é comandado de fora, por forças que não mais controla.
O resultado é a pessoa tornar-se “estranha”, “alheia” a i própria: é o fenômeno da alienação. Alienação. Do latim alienare, “afastar”; alienus, “que pertence a um outro”; alius, “outro”. Portanto, alienar, sob determinado aspecto, é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu.
Há vários sentidos para a palavra alienação. Em todos eles, há algo em comum: do ponto de vista jurídico, perde-se a posse de um bem; para a psiquiatria, o alienado mental perde a dimensão de si na relação com os outros; segundo Rousseoau, o poder do povo é inalienável, porque só a ele pertence; na linguagem comum, a pessoas alienada perde a compreensão do mundo em que vive.
Etimologia: Alienação. Do latim alienare, “afastar”; alienus, “que pertence a um outro”; alius, “outro”. Portanto, alienar, sob determinado aspecto, é tornar alheio, tranferir par aoutrem o que é seu.
Ø Alienação na produção – Para Marx, que analisou esse conceito básico, a alienação não é puramente teórica, porque se manifesta na vida real quando o produto do trabalho deixa de pertencer a quem o produziu. Isso ocorre porque na economia capitalista prevalece a lógica do mercado, em que tudo tem um preço, ou seja, ao vender sua força de trabalho mediante salário, o operário também se transforma em mercadoria. Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do trabalhador. Vejamos o que significam esses conceitos.

·      O fetichismo é o processo pelo qual a mercadoria, um ser inanimado, adquire “vida” porque os valores de troca tornam-se superiores aos valores de uso e passam a determinar as relações humanas, ao contrário do que deveria acontecer. Desse modo, a relação entre produtos não se faz entre eles próprios, mas entre os produtos do seu trabalho. Por exemplo, não são relações entre alfaiate e carpinteiro, mas entre casaco e mesa, que são equiparados conforme uma medida comum de valor.
·      A reificação (do latim res, “coisa”) é a transformação dos seres humanos em coisas. Em consequência, a “humanização” da mercadoria leva à desumanização da pessoa, á sua coisificação, isto é, o individuo é transformado em mercadoria.
A alienação não se aplica apenas à produção do trabalhador, mas também às formas do consumo, como veremos mais adiante.
A ERA DO OLHAR: A DISCIPLINA – Outros pensadores investigaram as mudanças decorrentes do capitalismo e do nascimento das fábricas, analisando-as sob outro ângulo, o da instauração da era da disciplina. Segundo Michel Foucault, um novo tipo de disciplina facilitou a dominação mediante a “docilização” do corpo.
Para exemplificar, vamos voltar à França do século XVIII. A historiadora francesa contemporânea Michelle Perrot relata a descrição feita por um inspetor de manufaturas de uma oficina têxtil com cerca de 100 metros de comprimento, pavimentada por lajes e iluminada por cinquenta janelas com tela branca: No meio dessa sala [em] um canal coberto com lajes entreabertas cada fiandeira vai, em silencio, tirar a água de que precisa [para a fiação]. Essa oficina, à primeira vista, surpreende o visitante pela quantidade de pessoas aí empregadas, pela ordem, pela limpeza e pela extrema subordicação que aí reina... Contamos 50 rocas duplas[...] ocupadas por 100 fiandeiras e o mesmo tanto de dobradeiras, tão disciplinadas como tropas.
Nos trechos sublinhados, a historiadora destaca a nova maneira de trabalhar, representada por dois modelos disciplinares: o religioso (silencio) e o militar (hierarquia, disposição em fileiras). A disciplina é mantida pelos supervisores, que avaliam a qualidade do serviço, evitam brigas e fazem cumprir os severos regulamentos por meio de proibições (não falar alto, não dizer palavrões, não cantar), regras de horários (começa a “tirania” do relógio para entrada, saída e intervalos) e ainda penalidades como multas, advertências, suspensões, demissões, de acordo com a gravidade da “falta”.
Na nova estrutura, o olhar “olhar vigilante” sobressai de maneira decisiva. A organização do tempo e do espaço imposta na fábrica não é, porém, um fenômeno isolado. Nos séculos XVII e XVIII, formou-se a chamada “sociedade disciplinar”, com a criação de instituições fechadas,voltadas para o controle social, tais como prisões, orfanatos, reformatórios, asilos de miseráveis e “vagabundos”, hospícios, quartéis e escolas.
Para saber mais: A escola institucionalizou-se de maneira mais complexa  quando foram criados os internatos, com a exigência de separação por idades, graduação em anos e organização de currículos.
Assim diz Michel Foucault: Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo [...]. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII formulas gerais de dominação. [...]. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. [...] A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”.A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência).
Para refletir: La Fontaine viveu na França do século XVII. Escreveu várias fábulas, dentre as quais destaca-se A cigarra e a formiga, que todos conhecem. Vamos conhecer essa fábula e estabelecer a relação entre ela e a nova maneira de organizar a disciplina do trabalho. Em seguida, pensando nos tempos atuais, invente outro final para a história.
DE OLHO NO CRONOMETRO – O poeta brasileiro Mario Quintana, em Das ampulhetas e das clepsidras, diz o seguinte: Antes havia os relógios d’água, antes havia os relógios de areia. O tempo fazia parte da natureza. Agora é uma abstração – unicamente denunciada por um tic-tac mecânico , como um acionar contínuo de um gatilho numa espécie de roleta-russa. Por isso é que os antigos aceitavam mais naturalmente a morte.
Dialogando com o poeta, acrescentamos que somos “feitos” de tempo: sem a memória (passado) e sem os projetos (futuro), o nosso presente deixaria de ser propriamente humano. Portanto, o que dizer de um tempo de velocidade preestabelecida que não respeita a cadência do próprio corpo nem as diferenças individuais?
Na era capitalista, eficácia, organização e padronização transformam-se em palavras de ordem e todo movimento passa a ser controlado externa e artificialmente. Se artificializamos demais os ritmos vitais, nem poderemos “morrer bem”, já que vivemos tão mal!
Foi isso que aconteceu quando os proprietários das fábricas, na busca de maior produtividade, implantaram sistemas de “racionalização”, que em última análise, significam economizar tempo, transformando-o em mercadoria. Como foi possível tal proeza?
Ø Do trabalho ‘em migalhas” – O norte americano Frederick Taylor, no inicio do século XX, elaborou uma teoria conhecida como taylorismo. Partindo do principio de que os operários são indolentes e não sabem usar seus gestos de modo econômico. Taylor estabeleceu um “controle cientifico”,por meio da medição por cronômetros, para que a produção fabril fosse cada vez mais simples e rápida.
Com a criação de um setor de planejamento responsável pelo “saber como produzir”, ficava muito mais nítida a separação entre a concepção e a execução do trabalho, isto é, entre o projeto  e a sua realização, entre o pensar e o fazer.
A mesma intenção de aumentar a produtividade levou Henry Ford, também norte-americano, a introduzir a esteira da linha de montagem e o processo de padronização ou estandardização da produção em série na sua fábrica de automóveis.
O parcelamento das tarefas reduz a atividade a gestos mínimos, o que aumenta a produção de maneira incrível, mas também transforma o trabalho “em migalhas”: cada operário produz apenas uma parte do produto.
Um dos problemas desse processo é que, além da monotonia que reduz a ação a operações simples, detecta-se a fragmentação do conhecimento: o operário perde a noção do todo e com isso o conhecimento prático da fabricação de um objeto, situação muito diferente daquele do antigo artesão, que cuidava de todas as etapas da confecção de um produto.
O planejamento e a burocracia apresentam-se com a imagem de neutralidade e eficácia da organização, como se estivessem baseados em um saber objetivo, eficaz, desinteressado. Essa imagem de neutralidade mascara um conteúdo ideológico eminentemente político: trata-se, na verdade, de uma técnica social de dominação. Vejamos por quê.
A chamada racionalização do processo de trabalho trouxe em si uma irracionalidade básica, ao desvalorizar o ritmo do corpo, o sentimento, a imaginação, a inventividade humana. Não é fácil submeter o operário ao trabalho rotineiro e repetitivo, reduzindo-o a gestos estereotipados, mas com o taylorismo, a coação visível de um chefe foi substituída por maneiras mais sutis de constrangimento que tornam o operário submisso, porque as orientações vindas do “setor de planejamento” tornam a ordem impessoal. Ao retirar toda iniciativa do operário, modela seu corpo segundo critérios exteriores, “científicos”, e faz com que interiorize a norma.
Aliado à lógica da produção em série, o investimento em publicidade visava a provocar artificialmente a “necessidade” da compra. Estava nascendo a sociedade de consumo com seus patrocinadores, anunciantes, facilidades de crediário e campanhas publicitárias veiculadas, naquele tempo, sobretudo pelo rádio. Desse modo, as fábricas não só lançavam um produto na praça, mas também “produziam” o consumidor.
NOVOS TEMPOS NA FÁBRICA – A partir da década de 1970 e 1980, mudanças radicais nas maneiras de trabalhar repercutiram no modo de vida tanto nas cidades como no campo. Com a implantação de tecnologias de automação, robótica e microeletrônica surgiram novos padrões de produtividade. A tendência nas fábricas foi quebrar a rigidez do fordismo e do taylorismo. Implantado por diversas empresas, o sistema ficou conhecido como toyotismo, nome originado da fábrica japonesa de automóveis Toyota.
O novo sistema de produção é mais flexível por atender aos pedidos à medida da demanda, com planejamento a curto prazo. Ao contrário do fordismo, são privilegiados o trabalho em equipe, a descentralização da iniciativa, com maior possibilidade de participação e decisão, além da necessidade de polivalência da mão de obra, já que o trabalhador deve controlar diversas máquinas ao mesmo tempo.
Outra característica dos novos tempos na fábrica foi o enfraquecimento dos sindicatos desde o final da década de 1980, o que repercutiu negativamente na capacidade de reivindicação de novos direitos e na manutenção das conquistas realizadas.
Para refletir: “Em julho de 2008, as autoridades do trabalho japonesas reconheceram que um importante funcionário da Toyota, de 45 anos, morreu devido ao excesso de trabalho, um mal conhecido no país como “karoski”. Ele teve uma isquemia cardíaca em janeiro de 2006 [...]. A vítima era o engenheiro-chefe do projeto da versão hibrida do sedã Camry. Ele teria trabalhado ao menos 80 horas extras mensais em novembro e dezembro de 2005. Essa carga a mais de trabalho incluía jornadas noturnas e finais de semana, além de frequentes viagens para o exterior. [...]De acordo com a agência Associated Press, a empresa soltou uma nota de pêsames e afirmou que vai melhorar o controle sobre a saúde de seus profissionais. (UOL Notícias, 9 jul. 2008. Disponível em http://carros.uol.com.br/ultnot/2008/07/09/ult634u3082.jhtm).
DA FÁBRICA PARA O ESCRITÓRIO – Na segunda metade do século XX, notou-se o deslocamento da mão de obra para o setor de serviços, ou seja, há mais trabalhadores no comércio no transporte e nos serviços de escritório em geral do que nas fábricas ou no campo. Isso não significa que as atividades agrícolas e industriais tenham perdido importância, mas que elas também dependem do desenvolvimento de técnicas de informação e comunicação. No nosso cotidiano, consumimos serviços de publicidade, pesquisa, comércio, finanças, saúde, educação, lazer, turismo etc. Nos escritórios, a comunicação é ampliada e torna-se cada vez mais ágil, quase instantânea, veiculada em âmbito mundial pela expansão das redes de telefonia e das infovias (Infraestrutura em forma óptica para transmissão de voz, dados e imagens).
Os recursos de microeletrônica têm facilitado a nova estrutura do teletrabalho (trabalho a distância), que possibilita maior autonomia e flexibilidade de horário, desobrigando as pessoas de se dirigirem diariamente a locais fixos, o que, em alguns casos, viabiliza o trabalho no próprio domicílio.
CONSUMO OU CONSUMISMO? A exploração e a alienação da produção estendem-se para a esfera do consumo. Ao prosperarem materialmente, os trabalhadores compartilham do “espírito do capitalismo”, atraídos pelas promessas da sociedade de consumo. Os centros de compras se transformam em “catedrais do consumo”, verdadeiros templos cujo apelo constante às novidades torna tudo descartável e rapidamente obsoleto. E com as facilidades da internet já se pode comprar até sem sair de casa. Vendem-se coisas, serviços, ideias.
Isso não significa, porém, que todo consumo seja alienado, pois o consumo pode ser consciente e criativo.
Ø  O consumo consciente – Consumir é um ato humano por excelência, que nos permite atender a necessidade vitais, próprias da sobrevivência, como alimentar-se, vestir-se e ter onde morar. Mas não só. O consumo abrange também tudo o que estimula o crescimento humano em suas múltiplas e imprevisíveis direções e como tal oferece condições para nos tornarmos melhores.
Pelo consumo consciente participamos como pessoas inteiras, movidas pela sensibilidade, imaginação, inteligência e liberdade. Por exemplo, não comemos e bebemos apenas para saciar a fome ou a sede, ,as temos preferências que o paladar apura, e usamos de criatividade para inventar novos pratos e bebidas saborosos.
Mesmo provocado externamente, o consumo supõe a possibilidade de escolha autônoma, não só para estabelecer preferências como para optar por adquirir ou não determinado produto. Nesse sentido, o consumo nunca é um fim em si, mas sempre um meio para outra coisa qualquer. Caso contrário, ele se transforma em consumismo.
As necessidades de consumo variam conforme a cultura e também dependem de cada indivíduo. O que se observa é que o consumo nunca serve apenas para atender às necessidades humanas essenciais, pois ele assume um caráter simbólico quando emprestamos significado àquilo que desejamos comprar: satisfação física, intelectual ou espiritual, que pode variar da aspiração ao status social ao desejo daquele que espera apenas por comodidade.
No entanto, o consumo não depende da pura subjetividade, uma vez que envolve a relação com outras pessoas e, por isso, supõe a avaliação do impacto sobre elas. Por exemplo, decisão de comprar apenas de empresas que não exploram mão de obra escrava nem abusam de trabalhadores subempregados, não adquirir produtos piratas, evitar o hábito do consumo exacerbado que leva a desperdício e agir tendo em vista a sustentabilidade do planeta, entre outras expressões de conscientização do consumidor.
Do mesmo modo, consumo consciente seria reconhecer o impacto de propagandas que manipulam nossas escolhas. Muitas vezes, o consumo dá ao indivíduo apenas a sensação provisória de saciedade e satisfação, ou o faz sentir-se ilusoriamente inserido socialmente.
Além da compra de produtos, vale lembrar que “consumimos” também ideias, veiculadas pela mídia. A preferência pela leitura de determinada revista, jornal ou blog pode orientar fortemente nosso modo de pensar, caso não busquemos fontes diferentes que comparem e interpretem o mesmo fato. Por isso a pluralidade de veículos difusores de notícias é salutar na democracia e toda a censura é perniciosa.
Ø  O consumo alienado – A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos – pela qual se separam a concepção e a execução do produto – reduz as possibilidades de o trabalhador encontrar satisfação na maior parte da sua vida, enquanto se sente obrigado a realizar tarefas desinteressantes.  Muitas vezes, essa situação cria a necessidade artificial de se proporcionar prazer pela posse de bens.
Além disso, a produção em massa tem por corolário o consumo de massa, porque as necessidades artificialmente estimuladas, sobretudo pela publicidade, levam os indivíduos a consumir sempre mais. O consumo alienado degenera em consumismo quando se torna um fim em si e não um meio, provocando desejos nunca satisfeitos, um sempre querer mais, um poço sem fundo. A ânsia do consumo perde toda   relação com as necessidades reais, o que leva as pessoas a gastar mais do que precisam e, às vezes, mais do que têm.
O comércio facilita a realização dos desejos ao possibilitar o parcelamento das compras, promover liquidações e ofertas de ocasião, estimular o uso de cartões de crédito, de compras pela internet. As mercadorias são rapidamente postas “fora de moda” porque seu design se tornou antiquado ou porque um novo produto se mostrou “indispensável”, seja televisão, geladeira, celular ou carro.
Para refletir: Ao olhar as vítimas, se pudéssemos examinar os “bastidores” da fabricação de muitas roupas “de marca”, encontraríamos tecelagens que produzem rápido à custa da exploração de mão de obra barata, principalmente de mulheres. É o caso de países como Guatemala, Honduras, Argélia, Turquia, Malásia e tantos outros, inclusive o Brasil.
CRÍTICA À SOCIEDADE ADMINISTRADA- Sobre a questão da produção e do consumo, debruçaram-se inúmeros filósofos, entre os quais os pensadores da Escola de Frankfurt, movimento que surgiu na década de 1930 na Alemanha.
Para os frankfurtianos, chegamos ao impasse que nos deixa perplexos diante da técnica – apresentada de início como libertadora – e que pode se mostrar, afinal, artífice de uma ordem tecnocrática opressora. A técnica aplicada ao trabalho tem provocado a alienação do trabalhador e o esgotamento dos recursos naturais. De fato, a exaltação do progresso indiscriminado não tem respeitado o que hoje chamamos de desenvolvimento sustentável.
Ao submeter-se passivamente aos critérios de produtividade e desempenho no mundo competitivo do mercado, o indivíduo perde muito do prazer de sua atividade ao ser regido por princípios aparentemente “racionais”. Por isso, Max Horkheimer acrescenta que “a doença da razão está no fato de que ela nasceu da necessidade humana de dominar a natureza”. E mais, que “a história dos esforços humanos para subjugara a natureza é também a história da subjugação do homem pelo homem”.
Ø  A razão instrumental – De que “razão” fala o filósofo? Trata-se da razão instrumental, que serve para qualquer fim, sem averiguar se é bom ou mau. Na sociedade capitalista, os interesses definem-se pelo critério da eficácia, uma vez que a organização das forças produtivas visa a atingir níveis sempre mais altos de produtividade e de competitividade. Onde a técnica é o principal, a pessoa deixa de ser fim para se tornar meio de qualquer coisa que se acha fora dela, além de que a relação do ser humano com a natureza passa a ser de domínio e não de harmonia. Na sociedade da total administração, segundo a expressão de Max Horkheimer e Theodor Adorno, os conflitos são dissimulados e a oposição desaparece.
Ø  A unidimensionalidade – Herbert Marcuse chama unidimen Max Horkheimer sionalidade à  perda da dimensão crítica, pela qual o trabalhador não percebe a exploração de que é vítima. O filósofo alerta para a distinção entre necessidades vitais e falsas necessidades, para que a satisfação dos indivíduos não se reduza a uma “euforia na infelicidade”. Assim diz ele: A maioria das necessidades comuns de descansar, distrair-se, comportar-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeia , pertence a essa categoria de falsas necessidades. Tais necessidades têm um conteúdo e uma função sociais determinados por forças externas sobre as quais o individuo não tem controle algum; o desenvolvimento e a satisfação dessas necessidades são heterônomos. Independentemente do quanto tais necessidades possam  ter se tornado do próprio indivíduo, reproduzidas e fortalecidas pelas condições de sua existências; independentemente do quanto ele se identifique com elas e se encontre em sua satisfação, elas continuam a ser o que eram de início – produtos de uma sociedade cujo interesse dominante exige repressão.
Etimologia: Heterônomo. Do grego, hetero, “diferente”, e nomos, “lei”. Aquele que é comandado por outrem, que está sujeito a uma lei exterior. O contrário de autônomo.
O que pretendemos não é negar o valor da razão instrumental, pela qual produzimos a cultura, mas recuperar o que se perde em termos de humanização quando a razão técnica prevalece sobre a razão vital. Tampouco, considerar o ser humano indefeso diante de um suposto determinismo a que não pode fugir. A questão fundamental está na reflexão moral e política sobre os fins das ações humanas no trabalho, no consumo, no lazer, nas relações afetivas, a fim de observar se estão a serviço do ser humano ou de sua alienação.
UMA “CIVILIZAÇÃO DO LAZER”? O lazer é uma criação da civilização industrial e apareceu como fenômeno de massa com características específicas que nunca existiram antes do século XX, quando a nova expressão histórica do lazer surgiu como contraponto explícito ao período de trabalho.
As reivindicações dos trabalhadores sobre o alargamento do tempo de lazer obtiveram alguns êxitos muito lentamente, tais como descanso semanal, diminuição da jornada de trabalho para oito horas, semana de cinco dias, férias. Era o início de uma nova era, que tendia a tomar contornos mais definidos com a intensificação da automação do trabalho. Estava sendo gestada a “civilização do lazer”.
A diminuição da jornada de trabalho criou o tempo liberado, que não pode ser confundido com o  tempo livre, pois aquele é gasto com transporte, obrigações familiares, sociais, políticas ou religiosas. O tempo propriamente livre, de lazer, é aquele que sobra após a realização de todas as funções que exigem obrigatoriedade.
O que é fazer então? O sociólogo francês Dumazedier diz: [...] o lazer é um conjunto de ocupações às quais o individuo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.
Há, portanto, três funções solidárias no lazer:
·      Descanso e, em decorrência, liberação da fadiga;
·      Divertimento, recreação, entretenimento e, consequentemente, uma complementação que dá equilíbrio psicológico, compensado o esforço no trabalho. O lazer oferece a oportunidade de expandirmos nossa vida imaginária, por meio da mudança de lugar, de ambiente, de ritmo, quer seja em viagens, jogos ou esportes ou ainda por atividades que privilegiam a ficção, o sonho, a crítica, como cinema, teatro, literatura, shows;
·      Participação social mais livre e, com isso, possibilidade de desenvolvimento pessoal; procura desinteressada de amigos, de aprendizagem voluntária, o que estimula a sensibilidade e a razão e facilita condutas inovadoras.
De tudo isso, fica claro que o lazer ativo não é um simples “deixar passar o tempo livre”, mas aquele no qual a pessoa pode escolher algo prazeroso e que ao mesmo tempo a modifique como ser humano. Não se pretende com isso prescrever antecipadamente o que seria uma boa ou má ocupação do tempo livre: qualquer tipo de lazer é ativo quando somos seletivos, sensíveis aos estímulos recebidos e compreendemos de modo crítico o que vemos, sentimos e apreciamos. Por exemplo, suas pessoas assistem ao mesmo filme podem ser ativas ou passivas, dependendo da maneira pela qual se posicionam para comparar, apreciar, julgar e decidir por si mesmas, independentemente de modismos ou de propagandas massificantes.
Ø Obstáculos de lazer – O tempo de lazer tem adquirido importância cada vez maior, configurando-se como um dos grandes desafios do terceiro milênio. Essa é a aposta do sociólogo italiano Domenico de Mais, que lembra como foi terrível o longo período em que o capitalismo amontoou os empregados em fábricas, segregando de modo brutal trabalho e vida. Segundo ele, nossa sociedade teria todas as condições de realizar o sonho do não trabalho e do ócio criativo, isto é, do ocupar-se com atividades sem premência de tempo e que permitissem “a elevação do espírito e a produção da ideias”. Seria esse um sonho possível?
O problema está em saber se a indústria cultural propicia alternativas de escolhas ou se as cidades oferecem infraestrutura que garanta aos mais pobres a ocupação do seu tempo livre em atividades gratuitas ou menos dispendiosas: lugares onde ouvir música, praças para passeios, clubes populares, locais para a prática de esportes e de integração social espontânea. Essas restrições reduzem as possibilidades de lazer ativo, não alienado.
Além disso, bem sabemos estar distante a possibilidade de expandir o tempo de lazer. Vejamos alguns motivos: as empresas têm feito reestruturações severas terceirizando tarefas, o que significa a perda de benefícios antes conquistados; os programas de enxugamento do quadro de pessoal sobrecarrega os funcionários que, sob o risco de desemprego, sentem-se obrigados a jornadas fatigantes, em nome das metas de produtividade estabelecidas pela empresa; o teletrabalho, apesar da aparência confortável de atividade em domicílio, confunde horários de trabalho e momentos de lazer, com evidente prejuízo deste último; a flexibilização do contrato de trabalho obriga o trabalhador a assumir  vários empregos de “jornadas curtas”, como é o caso dos professores. Além de tudo isso, os sindicatos, defensores dos interesses dos trabalhadores, têm se enfraquecido.
Será possível reverter esse quadro, se a anunciada mecanização e a robotização até agora não cumpriram as esperanças do tempo de lazer dilatado?
A SOCIEDADE PÓS-MODERNA: O HIPERCONSUMO – Nem todos os pensadores, porém, encaram o fenômeno contemporâneo do consumo e do lazer de massas como necessariamente alienados e alienantes, conforme preconizaram os frankfurtianos.
O filósofo francês Gilles Lipovetsky, por exemplo, prefere não demonizar o consumo, mas aceitá-lo como fenômeno do nosso tempo. Ele observa que, no final dos anos 70, devido às técnicas de  marketing e de preços mais baixos, os bens se tornaram acessíveis a um maior número de pessoas, inclusive para as de menor poder aquisitivo, ávidas de comprar nos grandes magazines. Dai surgiu uma nova fase de consumo mais intimista e personalizada. Por destacar no consumo o processo de personalização, Lipovetsky recusa-se a aplicar à sociedade pós-moderna o conceito marcuseano de inidimensionalidade. Também critica Foucoult, identificando que houve uma redução progressiva do progresso disciplinar no trabalho.
Para saber mais: O pensamento pós-moderno é representado por diversos filósofos com diferentes enfoques. Alguns consideram que os valores centrais da modernidade encontram-se esgotados (os pós-modernos, como Jean-François Lyotard). Outros acreditam que o projeto moderno não se esgotou (os neomodernos, como Habermas). Mas todos compartilham a ideia de que nas últimas décadas do século XX as transformações ocorridas na economia, na tecnologia e consequentemente no modo de viver exigem novos modos de pensar.
Para , Lipovetsky, “no rastro da extrema diversificação da oferta, da democratização do conforto e dos lazeres”, o acesso às novidades mercantis tornou-se mais comum, diluindo-se de certo modo as regulações de classe. Além disso, os consumidores estão “mais interessados em qualidade de vida, comunicação e de saúde, têm melhores condições de fazer uma escolha entre diferentes propostas da oferta”, determinando que o consumo ordene-se “cada dia um pouco mais em função de fins, de gostos e de critérios individuais”. Nessa fase a mercantilização das necessidades deixa de ser institucionalizada e torna-se mais subjetiva e emocional.
Apesar de considerar o consumidor mais crítico, Lipovetsky reconhece o poder massificante da publicidade e os malefícios do hiperconsumismo, entendido como a ilusão de que a mercadoria nos garantiria a felicidade. Ao contrário, o que nos preenche a vida é o que permite ao ser humano “inventar-se a si mesmo e inventar coisas”. O risco é deixar que o consumo se converta no sentido principal da vida das pessoas.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman não é tão otimista e diz que o consumismo “aposta na irracionalidade dos consumidores, e não em suas estimativas sóbrias e bem informadas”. Mesmo porque “a sociedade do consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua a não satisfação de seus membros”. Basta observar como os objetos de desejo são facilmente descartáveis para que um novo desejo imperioso se imponha.
Para refletir: Em uma das exposições do Fórum Universal da Cultura de 2004-Barcelona, havia essa informação: “A riqueza cresce, mas a pobreza também. Quinhentas companhias controlam 70% do comércio mundial e 30% do PIB mundial. Todas estão nos EUA, na Europa e no Japão”. Evista Fórum 2004, 9 mai/26 set. 2004, p. 21)
Quais as consequências dessa situação para o trabalho, o consumo e o lazer?  PARA ONDE VAMOS?
As maneiras de trabalhar e consumir mudam conforme a época e o lugar, assim como são variadas as concepções que temos sobre essas atividades humanas. Nas últimas décadas, porém, presenciamos transformações extremamente rápidas, que alteraram de maneira drástica nosso modo de vida.
No início do século XX, foram marcantes as iniciativas de produção em série nas linhas de montagem, com a consequente estimulação do consumo de massa, apesar dos efeitos alienantes no campo do trabalho e de consumo. Nada se compara, porém, ao impacto causado no final do milênio com a implantação da tecnologia avançada da automação, bem como da comunicação em tempo real possibilitada pela informática nas fábricas, nos escritórios e no campo.
A produção globalizada na época do hiperconsumo nos obriga a rever as críticas aos antigos modelos de alienação no trabalho e no consumo. Entretanto, no brilho  da diversificação das tarefas e das ofertas múltiplas de compras, estaríamos livres de outros modos de manipulação da nossa consciência crítica e portanto de nossas escolhas?
Tudo isso aumenta nossa responsabilidade, tanto no plano pessoal como no coletivo. Apesar dos benefícios alcançados pela nossa civilização, há um grande número de pessoas excluídas do sistema, e o desequilíbrio ecológico agrava-se a cada dia. O importante é verificar, a todo momento, em que medida as atividades do trabalho, consumo e lazer então a serviço da humanização e da sustentabilidade do planeta e quando se desviam desses objetivos principais.

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